JOANA D’ARC - CONDENAÇÃO E REABILITAÇÃO

CONDENAÇÃO E REABILITAÇÃO DE JOANA D’ARC




Joana d'Arc nasceu em Domrémy-la-Pucelle, pequena aldeia ao noroeste do ducado da Lorena. Era uma camponesa inculta e apenas pouco mais que uma criança, quando chegou à fama. Há quem atribua sua fé e determinação a certa ingenuidade e pouca experiência de vida e, se por um lado permitiram-lhe a realização de uma grande façanha, por outro, abreviaram tragicamente sua existência, imortalizando-a como mártir e heroína da libertação de seu país.



Aldeia e Igreja de Domrémy-la-Pucelle.


Casa de Joana d'Arc em Domrémy

Nas últimas décadas da Guerra dos Cem Anos, a luta pela posse da coroa da França levava os francos, tais como o escudeiro Jean de Metz, a perguntar: "Deve o rei ser expulso do reino e passarmos a ser ingleses?" Joana renovou o ânimo de uma população inerte e entregue ao próprio sofrimento e transformou o que era uma exclusiva disputa dinástica em uma guerra popular passional de libertação nacional.



Joana no cerco de Orleans.

A pintura de Jules Eugène Lenepveu (1886-1890), no Panthéon de Paris, é uma representação altamente romântica. Joana não usava uma armadura de placas metálicas, conforme testemunhou no processo. Seu cabelo era cortado curto e redondo e aboliu totalmente o uso das roupas de mulher. Usava camisa, calções, gibão com mangas, fechado e amarrado por 20 pontos, longas perneiras atadas na parte externa, um manto curto alcançando quase até os joelhos, um chapéu de corte raso, botas e coturnos de amarrar, longas esporas, espada, punhal, escudo, lança e outras armas, ao estilo dos homens-de-armas, com as quais ela participou dos atos de guerra, afirmando sempre que estava cumprindo as ordens de Deus, tal como a ela tinham sido reveladas.

Chegando a Orleans Joana foi conduzida à residência de Jacques Boucher, tesoureiro duque de Orleans, cativo dos ingleses. Ela estava exausta, despojou-se das armas e foi alojada no quarto de Charlotte, uma das filhas de Boucher de 9 anos de idade. Mais tarde ela presenteou a menina com um dos seus chapéus que permaneceu com a família Boucher por, aproximadamente, 350 anos antes de ser destruído no século XVIII pela Revolução Francesa.


O Chapeu de Joana d’Arc

O estilo foi preservado até 1792, pelos Oratorianos de Orleans. Era de feltro cinza com abas largas, reforçadas por dobras na frente e atrás e mantidas presas por um lírio de cobre. No topo havia um lírio de cobre dourado do qual desciam filigranas em espiral de cobre dourado em cujas extremidades pendiam flores de lis sobre as bordas do chapéu. O tampo era em tela de linho azul.

“Perguntada se, quando foi para Orleans, ela tinha um estandarte ou bandeira e de que cor era, ela respondeu que tinha uma bandeira, com campo semeado de lírios, com uma representação do mundo e dois anjos, um de cada lado; era branca, de linho branco, ornada de seda e acreditava que nela estavam escritos os nomes, Jhesus e Maria.”


A bandeira de Joana d’Arc, conforme ela descreveu no tribunal

Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, astuto negociador partidário dos ingleses foi encarregado do caso contra Joana. Ela fora presa em Compiègne, que ficava em sua diocese e Cauchon conseguiu um acordo em que os ingleses pagariam uma grande quantia pelo resgate da jovem, mas a entregariam às autoridades da Igreja para ser julgada. Deveriam provar que ela era uma feiticeira, mancomunada com o diabo e com espíritos maléficos, mas se acontecesse a longínqua possibilidade de Joana não ser considerada culpada, ela seria devolvida aos ingleses. Depois desta façanha, Cauchon tornou-se o principal juiz presidente do julgamento.


Joana é capturada pelos burguinhões em Compiègne.

O Julgamento iniciou-se em 21 de fevereiro de 1431. Dos quarenta assessores, muitos eram simpatizantes da causa inglesa e queriam vingança. A acusada teria que enfrentar sozinha o tribunal e, apesar disso, firme na dedicação aos seus santos, Joana entrou irradiando tranqüilidade. Já no primeiro procedimento, o de juramento de sinceridade, ela expressou suas dúvidas sobre a amplitude dos assuntos a quem devia lealdade em primeiro lugar: "A respeito de muitos assuntos, jurarei voluntariamente mas, as revelações que me foram feitas por Deus e que nunca contei a ninguém, a não ser para Carlos, meu rei, não as revelarei, embora isso possa me custar a vida. Minhas vozes e meu conselho secreto têm me dito para não revelá-las a ninguém."


Joana e a visão do Arcanjo Miguel

Ela devia fazer o juramento, caso contrário, seu depoimento não teria valor algum, mas Cauchon teve que concordar que ela deveria responder a perguntas sobre seus atos e sua fé, mas poderia não fazer o mesmo com relação às suas visões. Jean Beaupère, ex-reitor da Universidade de Paris, fora designado para ajudá-lo na reinquirição e salientou que seria melhor se ela comprometesse a si mesma. Eles queriam um caso de heresia e feitiçaria para que a Inquisição a declarasse culpada e a entregasse ao setor secular para a sentença de morte na fogueira.
A próxima sessão seguiu numa câmara menor, como Beaupère solicitou. Estava presente também o inquisitor de Paris, Jean Le Maître. Joana estava tranqüila, pois suas vozes tinham dito que tivesse ânimo, Deus a estava protegendo, e acima de tudo ela deveria ser valente. Devia falar o que lhe passasse pela cabeça, recusar-se a responder se lhe perguntassem alguma coisa que achasse sagrada demais para ser mencionada e sobre outros assuntos, dizer a verdade.
O julgamento prosseguia e Beaupère quis saber de que modo ela localizara o Delfim quando fora levada à presença dele. O Delfim tentara impingir outra pessoa a ela, mas ela o identificara de imediato e disse que fora guiada até ele. "Por qual sinal?" "Sobre isso não vou falar." Os assessores trocaram sussurros. Que tipo de julgamento era aquele, no qual a prisioneira estava sempre se recusando a responder certas perguntas? "Então essas vozes falaram com você, uma humilde camponesa. Você deveria fazer essa coisa estranha... deixar suas vacas e suas ovelhas e levar o Delfim até à vitória." "Foi isso que me disseram pra fazer" "E qual seria sua recompensa por tudo isso?" "A salvação de minha alma."


Beaupère começava a ficar exasperado. A jovem estava causando uma impressão muito boa. Claro que iriam considerá-la culpada, mas isso devia ser feito de maneira a não deixar dúvidas. Não queriam que ela se tornasse mártir depois da morte. Os espectadores se espantavam com o modo que Joana lidava com a situação e, apesar de muito cansada, ela não desistiu e não se deixou intimidar. Dessa vez, Cauchon assumiu o interrogatório.
"Você sabe se está na graça de Deus?" perguntou ele com ironia. "Se não estou, peço a Deus levar-me a ela; se estou, que Deus nela me conserve." Se ela dissesse que estava, seria acusada de reivindicar um saber exclusivo de Deus. Se dissesse que não, abriria brecha para ser acusada de agente do demônio. Mas com essa resposta, evitou os dois perigos.
O processo continuou por seis semanas e os assessores tentaram de inúmeras formas, mas era impossível provar conclusivamente, como pretendiam, que Joana era feiticeira, bruxa ou criminosa. Enfim, os juízes encontram como uma evidência para acusá-la, o fato de Joana recusar submeter-se à autoridade deles, isto poderia ser comprovadamente um motivo para ser condenada como herege. De acordo com a teologia da época, os ministros da Igreja recebiam o poder e a inspiração diretamente de Deus e, para amar e obedecer a Deus era preciso amar e obedecer a Igreja e seus ministros.



Joana diante de seus juízes por Andrew Lang.

O fato de Joana usar roupas masculinas era encarado como um crime contra Deus. Eles o exploraram minuciosamente, ordenando que ela pusesse roupas de mulher. Ela se recusou: "Essas roupas não afligem minha alma. Quanto às roupas femininas, não as porei enquanto isso não agradar a Deus." A insubordinação de Joana atingiu um ponto culminante quanto se recusou aceitar do tribunal que suas vozes eram malignas e emanavam do demônio. Seus juízes argumentavam que pessoas não instruídas submetiam-se a qualquer visão ou voz e que, somente um ministro da Igreja inspirado por Deus seria capaz de determinar a origem de tais vozes. As doutrinas sustentavam que as vozes vindas de Deus eram raras. Para provar que ela era uma verdadeira católica, deveria renunciar às suas vozes. A idéia era ridícula! Joana sustentou que a análise teológica em Poitiers, ordenada pelo Delfim a fim de verificar sua idoneidade moral em abril de 1429, “declarou-a de vida irrepreensível e boa cristã, possuidora das virtudes da humildade, honestidade e simplicidade” e que havia uma “presunção favorável sobre a natureza divina de sua missão”.
No início de abril, os juízes e assessores alinharam uma dúzia de acusações formais e trechos dos depoimentos de Joana que acreditavam apoiá-los. Distorceram muito do que ela realmente havia dito, mas havia uma acusação suficientemente séria para compensar todas as outras: "Ela não se submete à determinação da Igreja militante, mas apenas a Deus". O tribunal da Inquisição ainda prosseguia com uma série de procedimentos destinados a ajudar o acusado a ver e admitir seus erros. Mais do que fazer justiça, o tribunal se destinava a salvar almas e assim, o mês que se seguiu à acusação, o mês em que Cauchon e seus colaboradores tentaram "salvar a alma" de Joana, induzindo-a ao arrependimento, foi o mais horrível que a Donzela teve que suportar.



Torre prisão de Joana d’Arc em Rouen

Na primeira semana de maio, os religiosos, impacientes, levaram Joana à câmara de tortura do castelo e lá, interrogaram-na novamente, mas ela sustentava de que suas vozes eram de Deus: "Se quiser, terá de me arrancar membro a membro, e não poderei fazer outra coisa senão, me submeter. E se no auge da tortura que a sua crueldade me impuser eu admitir o que o senhor quiser que eu diga, depois direi ao mundo que foram mentiras arrancadas de mim pelos seus instrumentos de tortura." O plano da tortura afinal, foi abandonado.

De volta à sua cela, exausta, mental e fisicamente, havia dias que não comia nada a não ser um pouco de pão embebido em vinho, vieram no dia seguinte para levá-la ao tribunal e viram quanto ela estava mal. Ela não podia morrer, tinham que condená-la e mostrar que ela fora um instrumento do diabo. Os médicos concluíram que Joana precisava de descanso e, poucos dias depois, ela pareceu um pouco melhor.
Ciente do temor de Joana da morte pelo fogo, Cauchon manobrou para que ela presenciasse uma cena que lhe produzisse grande medo. Beaupère e o assessor Pierre Maurice a levaram à Saint-Ouen diante de num palanque de madeira onde estavam Cauchon e os assessores. William Erard, cônego de Rouen, que mais tarde admitiu não ter expressado seus sentimentos, começou a fazer um longo e severo sermão:
"Os franceses nunca foram uma nação realmente cristã. Carlos, que alegava reinar sobre aquela nação, devia ser um herege para ter confiado naquela mulher que agora estava diante de..."
"O senhor ofende nosso rei, que é o mais nobre dos cristãos. Ninguém gosta mais da Igreja do que ele.", interrompeu Joana.
O orador passou a relacionar os crimes que a donzela cometera.
"Faça sua submissão", trovejou ele. "Arrependa-se enquanto há tempo." Joana estava decidida a defender o rei. "Se tiver um erro, ele é só meu." "Ela está enfraquecendo”, considerou Pierre Maurice. “Ela disse: "Se tiver algum erro". Não teria dito isso uma semana atrás. Pobre menina. Pobre, corajosa menina!” "Você negará todas as palavras e atos que foram reprovados pelos juízes?" "Eu aceitarei as de Deus e do nosso santo pai, o papa." Depois disso, o cônego lê a sentença formal que condenava Joana a ser entregue às autoridades civis e queimada. Muitos assessores suplicavam que ela se submetesse e salvasse sua vida enquanto ainda era tempo, quando no meio do clamor, uma palavra atingiu Joana: "Fogo!". Ela pede para o cônego parar de ler. Renunciaria às suas vozes, vestiria roupas de mulher e faria tudo que a Igreja quisesse. Os juízes tinham uma declaração de retratação já pronta para ela assinar. Seus termos incluíam o consentimento em vestir roupas de mulher e submeter-se à prisão perpétua como pena por seus pecados.


Joana d'Arc ditava suas cartas. Três das sobreviventes levam a assinatura "Jehanne", 
com a caligrafia insegura de alguém aprendendo a escrever.
De volta para a cela fria e úmida, as pesadas correntes continuavam a prender seus tornozelos e somente o longo vestido que lhe deram para usar se mostrava diferente no local. Ela buscou auxílio em suas vozes e longe de ser confortantes, eram como uma consciência que não podia ser calada: "Você não agiu bem nesta última quinta-feira... O seu horror da execução é compreensível, mas você deixou que o medo empanasse seu julgamento. Você não serviu a Deus nem à verdade com o que disse. Falou apenas para salvar a sua vida e, com isso, condenou-se!"



Joana abjura e volta para a prisão com roupas femininas

Joana soube o que tinha que fazer. Mais uma vez teria de dizer a verdade e retirar sua retratação. Ela sabia também o que isso significava, arrepender-se da heresia e depois voltar atrás, era considerar-se uma herege da pior espécie. Somente a pena capital poderia ser dada nesse caso, e isso significava morte na fogueira. A antiga força de Joana retornara, e nem mesmo a vida tinha tanta importância quanto a necessidade de ser verdadeira consigo mesma, com suas vozes e com Deus. Recuperou as roupas masculinas e, apesar da proibição de usá-las não se importou, significava que sua fé renascia fortalecida. Ao amanhecer, Cauchon desceu à sua cela. "Por que vestiu essa roupa masculina e quem a fez vesti-la?", questionou. "Foi por minha própria vontade.", ela faz uma pausa, "Tudo que fiz nesses últimos dias foi por medo do fogo e minha retratação foi contra a verdade. Nunca fiz nada contra Deus e contra a fé, seja lá o que tenha feito, para negá-lo." Com isso, ela colocou em movimento uma cadeia fatal de onde não havia volta. Na manhã seguinte, quando soube da sentença ela lamentou: "Ah, preferia ser decapitada sete vezes que ser queimada!" Depois de confessar-se e comungar, conseguiu alguma paz. Isso a sustentaria durante os duros rituais das horas seguintes: a entrega de um vestido velho embebido em enxofre, para que incendiasse mais rapidamente, o solitário percurso até a praça da cidade na carreta do carrasco, a primeira visão do cadafalso com a madeira empilhada em sua base, a multidão de ingleses hostis, os religiosos solenemente sentados em plataformas e até durante o longo sermão dirigido a ela, permaneceu serena e calma.

TRECHO ORIGINAL DO PROCESSO DE CONDENAÇÃO

No livro Santa Joana D'Arc (Ed. N.Fronteira, 1964, p. 263/294), a autora Victoria Sackiville-West, relatou trechos autênticos do processo de Joana D'Arc, queimada viva como herege em Rouen, em 30 de maio de 1431, lido pelo Bispo Cauchon.

"Que a mulher comumente chamada de Jeanne la Pucelle... será denunciada e declarada feiticeira, adivinha, pseudoprofeta, invocadora de maus espíritos, conspiradora, supersticiosa, implicada na prática de magia e afeita a ela, teimosa quanto à fé católica, cismática quanto ao artigo Unam Sanctam, etc, e, em diversos outros artigos de nossa fé, cética e extraviada, sacrílega, idólatra, apóstata, execrável e maligna, blasfema em relação a Deus e Seus santos, escandalosa, sediciosa, perturbadora da paz, incitadora da guerra, cruelmente ávida de sangue humano, incitando o derramamento do sangue dos homens, tendo completa e vergonhosamente abandonado as decências próprias de seu sexo, e tendo imodestamente adotado o traje e o status de um soldado; por isso e por outras coisas abomináveis a Deus e aos homens, traidora das leis divinas e naturais e da disciplina da Igreja, sedutora de príncipes e do povo, tendo, em desprezo e desdém a Deus, consentido em ser venerada e adorada, dando as mãos e a roupa para serem beijadas, herege ou, de qualquer modo, veementemente suspeita de heresia, por isso ela será punida e corrigida de acordo com as leis divinas e canônicas..."


O bispo Pierre Cauchon
Aquilo era uma ironia, algumas pessoas na multidão se espantavam com a hipocrisia de uma Igreja que podia levar um de seus membros até aquela praça com o único propósito de entregá-lo às chamas e ao mesmo tempo livrar-se de toda a responsabilidade.
Com a leitura da sentença, o trabalho e o solene desenrolar dos procedimentos imediatamente retomados, as emoções explodiram. "Então vou morrer?" "Nenhuma cruz para segurar, nenhum consolo para ajudar em minha passagem?" "Não vão me dar uma cruz?" bradou, angustiada. Um dos religiosos atendeu o seu último pedido e amarrou um crucifixo numa vara, segurando-o perto de seu rosto, para que pudesse olhá-lo durante seus últimos momentos. Com sua morte, os sentimentos de lealdade ao rei e ao país, despertados por ela, se aprofundaram na população francesa. Dali em diante, a orgulhosa segurança por tantos triunfos começou a ser corroída e 25 anos após a execução de Joana d’Arc em Rouen, os ingleses tinham sido quase totalmente expulsos da França.



O suplício - Pe Isambard de la Pierre segura a cruz diante de Joana.

Um dos soldados ingleses, que detestava Joana e que tinha jurado levar uma tocha para a sua fogueira com as próprias mãos, foi acometido por um estupor, por uma espécie de êxtase ao ouvi-la gritando o nome de Jesus em seus últimos momentos. Ele precisou ser levado para uma taberna perto do Vieux Marché onde lhe deram uma bebida forte para que recuperasse os sentidos. E depois confessou a um frade da Ordem Dominicana, que também era inglês, ter cometido um pecado grave e que se arrependia do que tinha feito contra Joana, a quem ele agora considerava uma santa. Para ele, no momento em que se desprendeu o seu espírito, pareceu que uma pomba branca tinha voado em direção à França.

REJULGAMENTO E REABILITAÇÃO DE JOANA D’ARC

Joana d’Arc foi postumamente levada a novo julgamento após o término da guerra. Logo que a cidade de Rouen foi retomada aos ingleses e que os registros do julgamento de Joana ficaram disponíveis, começou-se a trabalhar para conseguir a sua anulação e limpar o seu nome. A pedido do Inquisidor-Geral Jean Brehal e da mãe de Joana, Isabelle Romée, o Papa Calixto III autorizou a reabertura do processo, O objetivo era investigar se o julgamento de condenação e sua sentença tinham sido tratados de forma justa e de acordo com a lei canônica. O padre Guillaume Bouille assumiu as investigações e Brehal realizou um inquérito em 1452. A apelação formal teve início em novembro de 1455, incluiu clérigos de toda a Europa que estudaram o processo judicial padrão e um grupo de teólogos analisou o depoimento de 115 testemunhas. Brehal elaborou a síntese final em Junho de 1456, que descreve Joana como uma mártir e implica o falecido bispo Pierre Cauchon em heresia, por ter condenado uma mulher inocente em busca de uma vingança secular. O tribunal declarou-a inocente em 7 de julho de 1456, e o papa Calixto III declarou Joana livre das acusações que lhe haviam sido imputadas.


Tumba do bispo Pierre Cauchon
Desenho de H.Wallon, 1892

Joana of Arc usava roupas masculinas, desde a sua partida de Vaucouleurs até sua abjuração em Rouen. Isto levantou questões teológicas em sua época e outras questões foram levantadas no século XX. A razão técnica para sua execução foi uma lei de vestuário bíblica e o julgamento de anulação inverteu a condenação em parte porque o processo de condenação não teve em conta as exceções a essa crítica doutrinária.
Disfarçada como um pajem, ao viajar através do território inimigo e usando apetrechos masculinos de proteção durante a batalha, ela estava mais segura. A Chronique de la Pucelle atesta que isso, inclusive, dissuadiu o abuso sexual enquanto ela estava nos acampamentos de guerra e que continuou a usar roupas masculinas na prisão, pelo mesmo motivo. A preservação da castidade foi justificada pelo uso do crucifixo sobre seu vestuário, o que teria afastado um assaltante e tornado menos provável que os homens a olhassem como objeto sexual. Quando questionada sobre seu vestuário masculino ela se referiu ao inquérito em Poitiers, onde os clérigos aprovaram a sua prática. Ela tinha como missão realizar o trabalho de um homem e assim era justo que ela se vestisse desta forma e também mantivesse seus cabelos curtos, durante as campanhas militares e na prisão. Seus defensores, o teólogo Jean Gerson assim como o Inquisidor Brehal, defenderam o seu corte de cabelo durante o julgamento de Reabilitação.

Há muito interesse nas visões religiosas de Joana d’Arc e o consenso entre os estudiosos é que sua fé era sincera. Alguns historiadores contornam as especulações afirmando que sua crença em seu chamado é mais relevante do que a origem última das suas visões. Documentos de sua época e historiadores anteriores ao século XX, assumem que ela era saudável e sã. Ela permaneceu inteligente e lúcida até o fim de sua vida, sempre respondeu de forma prudente e evidenciou uma memória prodigiosa. Diante de sua astúcia e da sutileza de suas respostas o tribunal foi obrigado a parar de realizar sessões públicas.


O esforço e a atuação de Joana d’Arc foram decisivos para a libertação e unificação do Estado da França. Como conseqüência, deu-se a extinção do regime feudal e o início do absolutismo, e encerrando-se a Idade Média ao final da Guerra dos Cem Anos tem início a Idade Moderna. Em 1920, Joana Darc foi canonizada pela Igreja Católica Apostólica Romana, devido, basicamente, à crescente devoção que os fiéis católicos lhe devotavam. Nenhuma outra personagem da Idade Média, homem ou mulher tem sido alvo de tantos estudos e referências como Joana d’Arc.

LA CROIX PUCELLE



É a mais antiga cruz da floresta de Saint-Germain, datada de 1456, ano da reabilitação de Joana d’Arc. Foi erguida por Jean Dunois, o Bastardo de Orleans, companheiro de Joana e então governador de St. Germain, atendendo a uma disposição da sentença de absolvição que ordenou: "Cruzes devem ser erguidas em memória de la Pucelle". A Croix Pucelle, retirada em 1793 e recolocada em 1850, participou em 13 de maio de 1956 de uma cerimônia religiosa para comemorar o 500 º aniversário da reabilitação de Jehanne, la Pucelle.


NOTAS BIOGRÁFICAS DE JOANA D'ARC



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Veja também: JOANA D'ARC - A DONZELA DE ORLEANS

Um comentário :

Marius Lucius disse...

Fiquei muito feliz com esta matéria sobre Joana D'Arc. Que ela possa ser uma justa homenagem a esta grande jovem mártir. Muito obrigado!